segunda-feira, 3 de maio de 2010

A distorção boba dos jornalistas

Alguns meses atrás meu filho Bela, perspicaz que só ele, a partir de uma reportagem que viu na super interessante sugeriu que o mercado possui uma “mão boba”, e este fato representaria uma falha de mercado por causar uma seleção adversa no mercado de trabalho. A pertinência do post do meu filho foi confirmada alguns dias depois quando ele viu no jornal da globo uma reportagem a respeito do estudo da London School of Economics que afirmava a existência de um “capital erótico”. Bela então questionou se essa não seria uma variável relevante ignorada pela teoria econômica.

Os posts são excelentes (meu filho me mata de orgulho!) e recomendo a todos ler mais de uma vez. Porém o Bela cometeu um grande deslize: Ele se baseou em textos e reportagens feitos por jornalistas. E esses seres distorcem mais os fatos que a mente esclerosada da Vovó consegue fazer em seus posts de panfleto comuna.

O estudo citado pelo jornal foi escrito por uma socióloga (Catherine Hakim). No artigo Hakim inicia citando os tipos de capital já aceito pela comunidade científica em geral: a) Capital cultural (quantidade de informação acumulada); b) Capital Humano (qualificação educacional e profissional); c) Capital social (referente a rede de relacionamento e influência que uma pessoa possui). A partir dessa revisão, afirma a existência do Capital Erótico que seria dividido em 7 aspectos: 1) Beleza, 2) Atratividade sexual (charme, sex appeal), 3) Atratividade Social (ser bem quisto), 4) Vivacidade (bom humor) , 5) Apresentação (roupa, jóias, etc. Nesse ponto ela até destaca a questão da sinalização de status social), 6) Sexualidade (Habilidades na hora do sexo, libido, imaginação erótica, etc.) e 7)Fertilidade (válido apenas para mulheres). Ao longo do texto, Hakim destaca que a importância do capital erótico varia de acordo com a cultura dos povos, e da área que se analisa. A própria autora ressalta muito mais o impacto do capital erótico sobre relações amorosas (como uma medida do poder de barganha que a pessoa possui em um flerte, namoro, casamento, etc.) que o impacto sobre a economia.

Portanto o capital erótico é muito mais amplo que apenas a altura, beleza ou rosto barbeado, como foi colocado na Super Interessante. Apesar de utilizar a palavra “capital”, o conceito tem mais impacto para a sociologia que para a economia, ao contrário do ressaltado pela reportagem do jornal da Globo. Ou seja, o mercado tem sim suas falhas, mas são limitadas e conhecidas. Já na interpretação dos fatos por parte dos jornalistas, as falhas são constantes, ilimitadas, e quando você acha que não pode piorar eles sempre arrumam um jeito de distorcer os fatos e criar uma manchete para “bate-trouxa” (a Super Interessante é expert nisso).

Além do mais, o conhecimento das facilidades geradas pela presença de capital erótico já tinha sido notada e resumida com muito mais propriedade por um dos maiores aforistas da atualidade, o Gari. Lembro de ter presenciado a bela Malu de meias elogiar um rapaz, que mesmo sendo desconhecido, a ajudou a resolver um problema com extrema presteza e boa vontade. Gari, ao escutar tal relato, sentiu o sangue ferver, e como quem parecia que iria ter um ataque do coração, com seu jeito zangado e voz de locutor de rádio AM, disse :“Malu-de-meias, você não sabe a complexidade das relações humanas”.

Mais uma vez parabenizo meu filho por trazer assuntos interessantes ao blog. Porém não se pode achar que todas as variáveis devem ser incluídas na teoria econômica. E eu não acredito que análises a respeito do capital erótico sejam relevantes na formulação de políticas macroeconômicas para o mercado de trabalho. Ou mesmo tenham impactos relevantes sobre ações dentro das firmas. Para a elaboração de políticas que gerem efeitos positivos e permanente sobre nível de preços, salários, emprego, a economia não pode entra muito no “lero-lero” da sociologia. A análise é direta com as variáveis estritamente necessárias. (O papo tem que ser reto Modes! Sem meias palavras Modes.). Nem todo tipo de capital (ou valor) é importante.



A mão do Bela é boba (mas ele conversa com ela para se comportar). A mão do mercado nem tanto. E a minha mão vai na sua cara se você não gostou do post, confunde sociólogo com economista e não gosta da tirinha da Mafalda!


20 comentários:

Gari disse...

Confesso não lembrar da passagem citada por você, dentão! Foi a bela Ma ou a bela Lu? Ou as belas Malu?

Mas muito bom, pensei que fosse ter que ameaçar sua condição de colaborados do blog para fazer você postar.

De fato, muito duvido de algumas pesquisas e métodos após ter tido aprendido algumas coisas com o pai da Ma (pai da Ma, mas com a companhia da Lu)! Principalmente quando a fonte não é direta, e passa por um "editorial". Na dúvida, duvide!

Modes disse...

Apesar de adorar essas curiosidades da sociologia, que de certa forma servem para entender o comportamento humano (ou seja, ligadas à teoria de escolhas da microeconomia), sou super a favor de modelos econômicos o mais simples possível.

Acrescentar o capital erótico no modelo econômico o tornaria mais complexo... e isto teria contrapartida em sua capacidade de explicação?

Como diz um rapaz esperto de nome complicado (gianfrancisco), pra dar certo tem que ter FOCO, FOCO!

Boi disse...

Muito bom dentão. Parece que o post foi escrito por um jornalista!

Concordo com sua opinião (quem sou eu para discordar de você, Dentão?). Durante nossa faculdade ouvimos muitas vezes que economia não é uma ciência objetiva. Concordo, mas acho que o nosso trabalho como economistas é tentar torná-la o mais objetiva possível para que as conclusões tenham embasamento e não parta de opiniões apenas.

Cada vez mais vemos trabalhos em economia comportamental. Muita gente confunde isso com sociologia e outras "ciências" picaretas do tipo. Na minha opinião, não tem nada a ver. Acho que a economia comportamental tenta "objetivar" a subjetividade das relações humanas, permitindo analisar as reações por meio de modelos matemáticos e estatísticos.

Lu disse...

Dentão, como diria o Bela, "paf paf paf, palmas...", o post ficou muito bom!

Modes disse...

Acho que o ferramental de análise da economia comoportamental nem sempre deva ser a formalização matemtática.

Um exemplo disso é quando se trata de incentivos. Suponhamos que um órgão regulatório deseja inibir determinado comportamento. Compreender a lógica do indivíduo/firma pode auxiliar na supressão deste comportamento por meio de incentivos (como leis), sem que haja, assim, modelos matemáticos. Aí talvez a psicologia e a sociologia podem ajudar a economia...Ok, podem me chamar de agitador marxista, mas vi muito disso em economia da criminalidade.

E até para elaborar modelos formais em economia comportamental, é trivial conhecer o que está por trás dos atos do indivíduo, isto é, estudar seu raciocínio. Sem este embasamento, muitos economistas descobrem causalidades fantásticas, que só existem no mundo dos comunistas de boteco.

Como diz um personagem de desenho, o beavis, "braçao, sem retaliações".

Dentão disse...

Concordo com algumas coisas que vc disse modes. Mas acho que a função do economista é, a partir de uma observação e conclusão feita por um sociologo ou psicologo, incluir isso em seu modelo de análise.

Quando o boi fala que a economia comportamental tenta "objetivar" um raciocinio é justamente por isso. Inclui-se em modelos econômicos específicos variáveis que realmente interferem na escolha dos individuos. E nenhum desses modelos chega a colocar em cheque a racionalidade dos individuos, apenas torna a análise mais apurada.

Modes disse...

"Mas acho que a função do economista é, a partir de uma observação e conclusão feita por um sociologo ou psicologo, incluir isso em seu modelo de análise."

Sim, nisso eu concordei e até ressaltei a importância nessa complementaridade interdisciplinar.

Além disso, pode ter certeza que minha opinião anda junto com a sua e com a do boi quando falam do papel "objetivo" da economia... não é a toa que Economia se enquadra na categoria Ciências Sociais APLICADAS.

O ponto de discordância que me motivou a postar é que não descarto a importância das ciências sociais para a Economia comportamental, assim como não acredito que a aplicação prática da economia comportamental deva seguir sempre modelagens matemáticas.

Dentão disse...

Eu acho que teoria econômica boa é como disse a Lízia "Pode ser escrita em 10 páginas com texto ou em 2 com equações"

Má disse...

haahaahha adorei esse post, e principalmente a tira da mafalda!
gari, quem é o meu pai?

Modes disse...

sim... acho que isso é válido sempre para o que borbulha na cachola da Lízia, a teoria macro.

Daniel disse...

Prefiro assim Dente: "Pode ser escrita em 1 páginas com texto ou em 1 equação"

Defensor dos oprimidos disse...

O maio economista que o Brasil jà teve era sociòlogo: Celso Furtado

Gari disse...

1) Quem te falou que foi o maior economista? Isso é como discutir quem é melhor Maradona ou Pelé, não tem fim.

2) Se foi, então ele mesmo parece ter desistido da sociologia, esperto ele não?

disse...

bibs, vc tá vivo!!!!!

Daniel disse...

Não sei qual a relevância, mas Celso Furtado era formado em direito pela UFRJ, não sociologia.
http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=397&sid=159

Daniel disse...

Má: tô vivo sim. e agora com medo.

Defensor dos oprimidos disse...

Gari, concordo que nao podemos afirmar que ele seja, necessariamente, o maior economista que o Brasil jà teve. Sò disse aquilo, na verdade, para mostrar que a sua implicancia com sociòlogos nao è justificada - a nao ser que voce seja um seguidor do Reinaldo Azevedo, mas ai è um problema seu!!
De qualquer forma, ele nunca desistiu da sociologia. Pelo contràrio, aplicou o pensamento social brasileiro à economia. Por mais que voce nao concorde com as teorias da Cepal, hà de se convir que elas foram importantes, ao menos, para abrir o debate.
Daniel, voce nao precisa ser formado em Sociologia para ser sociòlogo. O Celso Furtado foi jornalista aos 19 anos sem ter cursado uma faculdade de comunicaçao social. De qualquer forma, quando ele se especializou em economia na Sorbonne, ele tambèm estudou no Instituto de Ciencias Polìticas de Paris.

Gari disse...

1) Não tem implicância com sociólogos, o que foi levantado é até que ponto a sociologia é importante pra teoria econômica.

2) A implicância com sociólogos vem agora. Como diria o já citado pai da Ma, o problema é que os sociólogos brasileiros, por algum motivo, têm raiva de números, então pouco contribuem para a formalização de modelos.

3) O Celso Furtado parece mesmo ter evoluído, largou o jornalismo e a sociologia, realmente um grande homem.

Defensor dos oprimidos disse...

Gari, claro que a sociologia tem importancia para a teoria economica. Do mesmo modo que voce afirma que os sociòlogos tem raiva dos nùmeros, os economistas também deixam sempre de lado as interaçoes sociais que levam a um determinado resultado economico, ou que formam um abiente economico. Nem tudo è racional quanto se trata de relaçoes entre pessoas, e a economia nada mais è do que o fruto de tais relaçoes.

Dentão disse...

Existe sim uma interseção entre Sociologia e Economia. Porém sociológos não devem se meter em determinados assuntos que concernem apenas aos economistas, assim como economistas não devem querer incluir toda análise sociológica em seus modelos. Não se trata de ignorar as relações sociais. Na economia comportamental citada pelo Boi, por exemplo, se discute diversas formas de relações entre pessoas, e a conclusão tirada desses estudos devem ser consideradas no momento de analisar determinado modelo econômico que utilizou (a generalização) o agente racional. Tudo que é muito abrangente perde seu poder de explicação, como Jorge Luis Borges já sabia:

Do Rigor da Ciência

Naquele Império, a Arte da Cartografia logrou tal perfeição que o mapa de uma única Província ocupava toda uma Cidade, e o mapa do império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmedidos não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o tamanho do Império e coincidia pontualmente com ele. Menos Adictas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes entenderam que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedade o entregaram às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos; em todo o País não há outra relíquia das Disciplinas Cartográficas.